Teoria

Tornei-me homem muito mais tarde do que o senso comum pode esperar. Se a evolução de um homem o leva a uma saú­de ignorada – qual indivíduo forte sabe de sua fortaleza? –, o pro­gresso de uma doença psíquica não acarreta danos consideráveis ao entendimento do que é a liberdade. Um doente psíquico crê piamente, considera, de maneira pia, que seu estado seja a melhor saúde. Estágio esse, diga-se de passagem, o mais saudável.

Posso considerar-me um homem harmônico, até a época em que me transformei, definitivamente, em homem. A descontinui­dade não pode ser percebida entre quatro paredes, onde se vive pela subserviência. Servir cegamente é servir à saúde. Que é a saú­de senão a crença na unidade? Quando saí ao mundo – um bebê saudável, como sempre tenho ouvido –, a matéria polimorfa de meu íntimo foi sendo desbastada, curvada, delimitada, até fixar-se num objeto de cinco anos de idade: daí para frente, a fluidez de meu íntimo estacou. Pode-se dizer que a subjetividade de mi­nha geração sofreu um deslocamento, ou, em vocabulário menos científico: foi expelida de seus ovários de cogumelo parasitário. Enrijeci-me, de clara e gema de ovo para casca não esfarelada – um ovo pré-histórico.

Pois minhas faculdades inatas – a fome, a ânsia de gritar, cho­rar – não encontraram pauta, nem desenvolveram música. A mú­sica precisa, justamente, de nenhum significado para se expandir. Alicerçada na descontinuidade. A harmonia obsedante de um menino de cinco anos, cuja pauta musical era a da escala monocórdia… da mãe! Ah… digo! Com a devida pausa, este nome… que me enrijece e me acaricia. Ele golpeia-me como gongo. Que emi­te angústia e insanidade. Apenas soa fantasmal. A qualidade de fantasma, sua força é de fato irromper como mudo grito.

Ela era uma mulher alta, magra, de ossos como clavicórdios quebrados, pálpebras estufadas, mãos engelhadas. O cabelo: uma touca frouxa de fios de prata. Se a harmonia foi o eixo em torno do qual me subsumi, pelo contrário, esse mesmo eixo, que a tudo esterilizava, era, por seu lado, absolutamente descontínuo. Tenho de delimitá-lo: a incapacidade de desenhar um retrato. Se o fosse desenhar – iria escarificar a folha de papel com tanta violência e disparidade, o lápis de carvão em pedaços. Mostraria a qualquer um, que me diria:

– Não vejo nada além de uma cova.

Foi desse pleroma que me alimentei desde que vim ao mundo. Se fosse dada aos bebês a capacidade de discernir seus pais bio­lógicos, digo que, se a houvesse visto pela primeira vez, teria me suicidado por asfixia. Talvez antes mesmo de ver-lhe o nenhum rosto. Só a cavidade denteada de seu sexo abúlico, respirando o cheiro de túmulos, me faria arroxear. Isso me lembra, agora – não sei se contado ontem ou hoje, ou, há poucos instantes –, do caso de um bebê preso pelo útero da mãe. Sem que os médicos nada pudessem fazer, terminou estrangulado.

Esse exemplo me permite penetrar mais profundamente em meu passado em busca de subsídios para a teoria. Uma mãe que, mesmo antes de o filho nascer por completo, o estrangu­la, não deveria, após o parto, ir diretamente ao patíbulo? Essas me parecem a princípio as consciências mais devoradoras e aniquiladoras da saúde. Mas, observando melhor, com a ajuda de instrumentos mais eficazes, é possível observar, naquilo que nos parece o mais brutal assassinato, a origem da graça. Pois, analisem: a mãe que estrangula o próprio filho antes de nascer por inteiro, só o faz, pelo menos para mim, por compaixão, por ter consciência, nesse instante fugaz, de que mantê-lo vivo seria a mais dolorosa forma de subjugá-lo à harmonia. Seria estran­gulado, ao longo de uma vida inteira, por cada mínima fração de segundo. Deveria, em contrário, ao que todos pensam, ser abençoada e elevada aos céus.

Eu, pelo meu lado, não tive a sorte de ter sido estrangulado assim que nasci. Mas atinjo, aos quase quarenta anos, uma forma mais li­vre. Um homem, que teve, por infinitas vezes, a corda no pescoço, é um homem, como todos os criminosos, muito desconfiado. A marca da corda no pescoço é apavorante de se mostrar à luz do dia. Se evita uma aproximação mais íntima dos outros, qualquer ruído o apavora. Corre-se como louco, se alguém o chama. Pensa: “Onde estão os esbirros?” E seu peito bate de amargura doce à sensação de que um punhal pudesse escoimá-lo com a última sentença.

Podem me condenar? De fato, podem. As pessoas com quem convivo não sabem de nada. Mas, se soubessem? O juiz, toga e peruca à moda antiga, soaria o martelo; e os jurados:

– Culpado!

Cadeira elétrica. Fluído letal na corrente sanguínea. Ou, a har­moniosa leveza de um patíbulo. A espinha dorsal partindo como galho tombado pelo curvar dos frutos. O outono dos fracos tem o peso do luto. Pois, se soubessem. Mais ainda: se chegassem a descobrir que a saúde começa onde nasce o assassino.

Essa é a máxima de minha teoria. Uma teoria exige princípios que derivem uma síntese, na maior parte dos casos. Minha síntese consiste em: só construindo um patíbulo para aqueles que sem­pre nos levaram suspensos pela corda é que se pode, por princí­pio, rir. E o riso possui a consistência de folhas correndo por um lajedo de túmulos na estação fresca. Não é um quadro da mais absoluta incoerência? Mas, quando se pode extrair incoerência do absoluto?

Construí este patíbulo por muitos anos. Talvez, desde que meus olhos foram cegados pela luz. Começou como um brin­quedo, que evoluiu ao longo do tempo, sempre ingênuo, da mais absoluta falsidade. Com outros brinquedos combinei as pernas, a plataforma, o madeiro, a corda, o banquinho. Aplainei, com per­feição, estrados para a plateia. Erigi o corpo jurídico. Proferiram a sentença. E a máquina, certeira, leve, como sopro, um vento mor­no purificador dos pulmões, apenas tombou o banquinho, e ela…

Por princípio, continuo escondendo minha mais bela obra ao mundo. Porque, no dia em que mamãe se partiu como um palito de dentes, a plateia urrou. E, ah, mais, sabem? Mantenho a mesma cena. Tê-la enforcado foi a exigência para me tornar um homem. E o brinquedo, praticamente construído, agora é real. Conservo tudo no lugar. E quando volto para casa, posso vê-la pendurada: os clavicórdios secos e sonoros. Pois sabem que ela canta? Mas como poderei lhes dizer isso: que sua música é para mim como a mais doce acusação?

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