As velhas

O quanto sobrou de Eli no rosto de Francisca, podemos nos perguntar, se postamo-nos numa dessas janelas verdes e olhamos a pequena senhora curvada, como uma antiga caixa de espírito, parada diante do espelho? Francisca espera que a irmã termine de arrumar os bandós brancos, aquecidos pelo xale empoeirado e o chapéu de fitas azuis. Mas Eli não parece temer que, ao se afastar do espelho, sua face continue congelada na superfície vítrea, alisando os cabelos com mãos pequenas e cinzentas, para depois apertá-las contra o peito. E, quando ela, como um peixe de espadanas douradas abandona o espelho, nós inclinamos as cabeças um pouco mais para dentro da casa; só que o lago bisotado, com moldura entalhada no carvalho, guarda realmente o rosto de Eli. Menos envelhecido, mais alegre que o de Francisca.

Não estamos mentindo quanto ao rosto de Eli. Apesar dos longos anos, ele conserva um ar infantil, mesmo entre todas as rugas, brilham dois olhos negros que se tornam azuis, quando uma docilidade maior os envolve. Parecem, por vezes, olhos de elfo, certa luminosidade indica um gosto pela maldade frívola, mas que denuncia, com maior vigor, determinado encantamento. Eli, de Eliza, pois assim chamava-a seu pai, não se nega a concordar que o tempo não conseguiu destruir sua intensa fragilidade. Tornou-se mais leve com os anos, como se os relógios a houvessem delicadamente esvaziado de todo o peso, que, segundo o senso comum, assinala o declínio da idade. Se pudéssemos entender o que de fato aconteceu com Eli, diríamos, por dedução, que sua vida, aparentemente livre de qualquer acontecimento notável, afastada da sociedade, vivendo todo esse período com a irmã, suportando-lhe os caprichos, o olhar rude, sem amantes ou filhos, conservou-a tanto da alegria quanto da dor. A soma final foi ter-se tornado intocável. E o tempo não se esforçou em maltratá-la, nem em amá-la.

Já Francisca, o rosto engelhado como o de um rinoceronte frio, conserva os olhos sobre as costas da irmã, que atravessa a sala, em direção à porta. As costas de Eli queimam, já que as pupilas da irmã riscam-na, acesas como fósforos, com um ardor que os anos não conseguiram arrefecer. E mesmo que sejam duas velhas solitárias, apartadas do mundo, nem cartas, ou telefonemas, alguma notícia de parentes – dir-se-ia até que a casa onde moram revela a austeridade de um templo, caiada, polida e branca ao luar que a dissolve em grãos de nuvem –, que sejam iguais, tanto Eli quanto Francisca, pois lhes reservou a senilidade o abandono, ainda Francisca sente que Eli é a preferida, porque se encolhe com maior força na cadeira de braços.

– Vamos, querida, é hora do trabalho – Eli lhe diz, numa voz de assobio, saindo pela porta para o luar.

Para Eli tudo é afago, nós mesmos sabemos. Enquanto ela se encaminha para o pomar, continuamos a divisar Francisca retesada na cadeira, olhando o rosto da irmã, que permanece no espelho. Mas quando foi que ela ganhou o primeiro brinquedo? Uma casa de bonecas, com janelas verdes e rebordos cor-de-rosa, com cortinas xadrez e uma chaminé. Havia aquela menina ruiva dentro da casa, vestida com um colete azul. Francisca corria atrás dela sobre o piso preto e branco. Havia a rainha, de gola irisada como afiados salmões escarlates; os cavaleiros armóricos segurando bandeiras com brasões. Eli atravessava o labirinto de topiaria, escondendo-se dela. Mas Francisca acabava por encontrá-la na margem do lago e, depois, entravam na cozinha muito grande para elas, as latas de biscoitos tão altas como se quisessem comer as estrelas.

– Há muitas estrelas no céu, Francisca! – ouve a voz de Eli sussurrando, longe, vindo em fiapos pelas ramagens.

– Já vou!

O tom das palavras é amargo. Como atender ao chamado de Eli fosse servir a uma velha obediência. Levanta-se da cadeira, aproxima-se do espelho, e lá está ela: o rosto fustigado por granizos, como um fiorde; o cabelo pintado de louro; a cabeça miúda pousada sobre os ombros arqueados, pois toda a sua vida é cansaço. O xale empoeirado, o chapéu de fitas azuis, os bandós brancos, todos esses traços de Eli permanecem no espelho, sobrepondo-se à sua própria imagem, um misto de Eli e Francisca, que lhe empresta uma coloração mais viva.

– Mas não passa de uma vida emprestada – grita a velha. – Com enfeites de máscara.

Francisca agita os braços em direção ao espelho e a irmã se desprende da superfície, abre as asas e, num voo, como pássaro, foge da sala. Está lá fora, no pomar, com suas coisas, seus tesouros: a pá, a tesoura, o veneno para insetos.

A lua se recolhe no pinheiral, seu rosto pálido descansa sobre o delicado lençol verde, sussurrando pelo vento que passa. Vaga-lumes desenham espirais de luz sobre a cerca que separa o pomar da casa de Eli e Francisca. Além, muitos metros à frente da cerca, começa o atalho entre os pinheiros, que leva até o lago de barcos ancorados, exibindo ao luar seus esqueletos.

Eli segurava a mão de seu pai, toda uma estrela que ele pudesse acariciar, assim, com seus dedos nodosos, macerados de cigarro, a pequena estrela-do-mar que era a mãozinha de Eli. Os brotos floriam de cada lado do atalho e, Francisca, com o vestido cinzento, vinha atrás deles, esmagando as pétalas de uma flor. Ele era um gigante. Uma faia, ou carvalho, o gigante de madeira sobre o qual pousara uma estrela. E, apesar de suas costas estarem apagadas, de todo o seu corpo ser uma vela fria, ele aquecera alguém, há alguns anos, outra estrela de que nem Eli ou Francisca se lembravam, dormindo agora como concha debaixo da terra, mas ainda refulgente na mãozinha de Eli. Pois só em Eli o pai ainda notava os traços da mãe. Enquanto Francisca era algo de bastardo, de erva daninha, entre os girassóis de talos erguidos, queimando ao luar.

– Veja essas maçãs! Veja, Francisca, como pomos de ouro!

Ela borrifa as maçãs com a bomba de inseticida. Insetos voejam em torno dos frutos, como lanternas que iluminam as formas do pomar. Francisca vê a cesta com a tesoura de Eli.

“Se, pelo menos, eu pudesse cravá-la em seu peito, até quando poderia sobreviver?”, pensou.

Essa mulher muito encolhida, tão cinzenta, olha a irmã com o borrifador nas mãos. Por que o chapéu de fitas azuis parece arder em sua cabeça? Como se ela fosse uma ninfa, como se fosse a única filha de seu pai.

Francisca cava com a pá um buraco no chão. Distribui algumas sementes, molha-as com o regador. Depois, cobre-as com terra. Ali em frente há abóboras, os talos verdes retorcidos enroscando-se na cerca. Repolhos cobertos de orvalho. O primeiro broto de uma pereira. As peras fulgindo ao luar, como delicados diamantes, como lágrimas que poderiam cair dos olhos de Francisca.

Seu pai sentava-se à beira do lago, cercado de pinheiros, o braço sobre o ombro de Eli, a mão acarinhando seus cabelos. Era uma cabeleira negra, adornando um rosto de mármore. Olhos recortados como os de uma chinesa. Todos a achavam a menina mais bela. O pai contava-lhe a história dos peixes daquele lago, que antes haviam sido príncipes, mas, por invejarem os amigos mais bonitos, foram transformados em espadins, que podiam ser vistos no fundo, deslizando entre o musgo e as algas. Francisca, partindo um graveto nas mãos, sabia de quem seu pai estava falando. Sim, mas, então, como seria possível perdoar a beleza? Ela correu até a margem, apontou para o disco prateado no céu, depois para os peixes, mas ninguém reparou nela. E o sussurro dos pinheiros se juntava às últimas palavras do pai.

Apesar da beleza, não fora reservado à Eliza o único prêmio que lhe poderia caber. Ela não se casara. Em todos esses anos, só uma vez alguém a desejara com ardor. Eli, a menina de olhos de chinesa, esperava-o todos os dias diante da janela. Por que o menino de rosto claro, com o boné sobre os cabelos ruivos, pousado na bicicleta, ainda possuía olhares para Francisca? Ela sabia que seus olhos não eram os mesmos que pertenciam a Eli, quando se preocupavam em olhá-la. Perguntavam:

– O que fez de Eli a raposa ao luar e de Francisca, a raiz envelhecida?

Ela fugia para o quarto, o travesseiro de penas acolhia sua face, como dedos maternos.

Eli esperou todos esses anos por uma palavra do rapaz ruivo. Era, então, a mesma esbelta Eli de agora, cujos cabelos deixavam sombras azuis por onde andava, abrindo as corolas das mirtáceas, desenhando arcos dourados sobre os dias de Francisca. Ela os seguia, comungava todos os seus gestos sagrados. Viu quando Eli inscreveu com as unhas o nome dele no tronco sólido do carvalho. E como seus dedos sangravam, como os envolveu na túnica branca, mas as rosas de seu sangue purgaram com manchas de catedral o linho fino. Depois, Eli não o encontrou mais. Por quase um ano esperou-o à janela, as pupilas querendo acariciar a relva, os pinheiros, as folhas e a lua. Ela ainda o espera.

A lua adormeceu sobre os braços do pinheiral, parece uma criança loira, engolindo com o sono as estrelas. Francisca corta o último espinho de uma rosa.

– Venha, Eli. Já terminamos.

Sua voz é doce. Se ela fosse apenas voz, um sopro da noite, e não pudesse ser vista, não a atingisse mesmo a velhice, pois, se não é mais jovem, no entanto, permanece a esfinge grisalha, leve como profetisa, pura como a flor da montanha.

Quando elas retornam para casa, a lua não emite mais nenhum sussurro. Todo o seu rosto é sonho. Os cômodos é que se mantêm acordados.

Eli deixa a cesta sobre o sofá, depois se dirige para o quarto. Francisca aproxima-se da cesta. Consegue observar as gavinhas amarradas com uma fita verde. Não deixa de ser diferente, depois de tantos anos. Todas as vezes que voltam do pomar, a irmã faz esse arranjo com as gavinhas. Elas decoravam os bolsos, além das rosas brancas, das flores fanadas, em volta do corpo. Francisca não colocara numa das mãos a pomba branca? Ele seguia pela aleia de árvores despidas, como monjas tímidas, pedindo o agasalho da chuva, com a pomba por baixo da tampa. Em seguida, a terra, os grãos dedilhavam a madeira. Algumas nuvens formando coroas no fim da tarde. E, desde então, permaneceram juntas, muito mais do que antes, mesmo que Francisca gritasse, em sua vibração muda, sob a chuva, que o pai pensara que a pomba tivesse sido feita por Eli. Que seus olhos, por último, tivessem visto Eli.

– Não deixe de dar corda no relógio – exclama Eli, com um arrulho suave escapando do peito.

Ela não está mais no espelho, nem a irmã. Nós nos vemos em sua face polida e, ao mesmo tempo, as velhas nuas, começando a esconder a empoada vergonha sob as camisolas.

Quando se deitam, cada uma agradece à outra. Francisca vê a pomba branca, frágil, como de algodão. Os olhos acesos, rindo para ela.

– Boa noite, Francisca.

– Boa noite…

Por um instante, Francisca escuta o velho, doce e fatigado arrulho das portas, dos relógios, dos peitos das pombas, perdidos no ar, rumo à morte, como uma harpa.

Este conto integra o livro A flor no rosto (Editora Multifoco, 2010)

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