A flor no rosto

Segundo livro de contos do autor, publicado em 2010. Pode ser adquirido no site da Editora Multifoco.

PREFÁCIO

Marcus Alexandre Motta

Um conto, a forma da solidão. Alguns, a conduta triste da escrita. Um conjunto, a cifra musical que soa no isolamento da ante­câmara íntima de um “cantor”. Há sempre superioridade do conto em relação a qualquer romance; não se pode esquecer o ensina­mento de Machado de Assis. Há contos do qual nenhum efeito se põe maior. Há contos e “cantores”. Há, contudo, contos “leonardos”; maiores do que a causa de contar. Maiores uma vez que a superiori­dade dos contos “leonardos” não pode dar o que não tem.

Não dar o que não tem; eis o que não excede e, por conseguin­te, é por si superado. Se nós leitores, por razões supra e por outras, admitimos que Leonardo Vieira de Almeida tenha feito criaturas de papel e circunstâncias impressas, manifestamos que tenha fei­to o maior número. Nem se maravilhe o leitor que eu esteja para além das razões de um conto, que por isso mesmo se deva admi­rar a excelência do “cantor”, a qual vence os olhos dos leitores com aquilo que supera a mera intelectualidade: contar.

A primeira coisa e o primeiro segredo dos contos de Leonardo é que eles afiançam o acorde narrativo que acontece quando a consciência do “cantor” recebe a tarefa literária de reconhecer que nada e ninguém pode se manter encoberto face ao que a cada vez mais se declina. O leitor se perguntará, lendo os contos, mas que coisa é essa que se declina cada vez mais? Direi, antecipando tal como um alguém que conta, timidamente, uma história antes que outro a leia: a solidão.

Trata-se, portanto, daquilo que desde o início dos tempos literá­rios, como também muito mais agora, nunca se alcançou, por estar precisamente ao lado, em cima, por baixo, colado, na frente, atrás. Quem considera existente o que traz em si, não se contrapõe aos contos de Leonardo, antes apreende uma identidade inexistente que o vive. Pois a força da solidão e, mais ainda, a sua índole literária, consiste em estabelecer, suportar o que em si vive sem completo direito de se fazer existente que não seja literariamente.

Nesse sentido, os contos de Leonardo Vieira de Almeida pensam o mais imediato por que o ama. E esse mais imediato, a solidão, sente moças loiras, flores, noites, coisas ordinárias, com­panheiros, terra, ventos, animais, mães, pais e amantes como im­bricados no umbigo de muitos outros dias literários; cujas histó­rias são andantes em trilhas que assaltam de fora, conforme uma única força capaz de senti-las se manifesta.

É por esse motivo que a solidão é a única flor a nascer no rosto das páginas. A solidão sem direito a existir conforme é; é um conto a contar nesse conjunto de contos, ou livro, e que por isso precisa de muitos personagens e circunstâncias. Um conto é só e só como um sujeito a estampar, no semblante, a íntima e sensível improcedência do contar coerentemente — pois vive. Na solidão, ou conto, ou sujeito, muitas histórias ameaçam aquela que se conta. Há na es­crita de Leonardo, portanto, contos que não se arranjam em comu­nhão com o seu tema, tempo, espaço e motivos. Isso acontece, com toda imediata paciência daquele estado de espírito, para defrontar e vencer uma falsa-ideia-feita. Aquela que precisa apagar caminhos e forçar a narração a passar tocada pela coerência.

O conto maior é Leonardo escritor e, como tal, a face do nada integral, a solidão. Esta que contém tudo em sua indivisa simplici­dade, cuja riqueza de situações e figuras nunca prescrevem o seu espírito. É a solidão a intimidade e a interioridade da natureza de um conto denominado Leonardo Vieira de Almeida, que neste livro é um aqui: o personagem puro. É em torno dele que as apre­sentações literárias se posicionam: então, surgem, bruscamente, os olhos secos de lágrimas e o isolamento de uma flor, o indiví­duo, como nos diria Proust; e ambos, bruscamente, desaparecem. É essa a medida da solidão que avisa quando mira o homem de frente uma só vez em cada conto.

Ao leitor deste livro é cabível desconsiderar todas as linhas acima. Mesmo não as lendo, sentirá, sem o meu aspecto, a bele­za, palavra imprópria nos dias de hoje, que sem consciência de si não suporta a morte e requer sempre o contar. Dessa maneira, o livro de contos de Leonardo Vieira de Almeida é o desejo da be­leza em querer ser o signo de um acordo do real consigo mesmo, como diria Hegel. Logo, ao leitor cabe apenas viver a inquietação de sentir a solidão literária a se ver naquela que está como espelho nos olhos de alguém que estará lendo.

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