A filha

Havia esquecido que a terra fora lavrada com extremo cui­dado por mãos fortes de pessoas não tão fortes de espírito, curvadas pela submissão ou fé, não posso dizer, por que a fé não é uma forma de dependência a alguma coisa, seja homem, pedra ou carvalho? Quando as cabeças se levantaram, os rostos, da cor da fagulha e das lágrimas, espiavam-me como a um cão, ou animal de fúria, erguida a testa sem ruga alguma, declínio da crença ou da velhice. Que ódio poderiam ter de mim? Se ousassem se defender, extirpar a coleira que lhes cingia os três pescoços, os pés atados à terra – homens que pareciam troncos de árvores enegrecidas, estampados (o emblema da vergonha?) sobre o fundo branco da casa, na distância do tempo, longe de tudo o que os enterrou, mui­to longe e, ao mesmo tempo… ouço-os pelo açoitar do vento nas glicínias, lancetando a carne das coisas sedentárias, autofágicas.

Bruno me contou que Pamela vai chegar daqui a alguns ins­tantes, pela estrada, uma linha sinuosa de terra queimada, cingida pelos algodões, botões leves de flor, com salpicos vermelhos; en­tão, não serão os algodões de hospital, cujas flores (o sangue dos doentes) têm essa mesma consistência: das facas afiadas, aço po­lido e branco no centro vermelho, que pode ser o osso sorrindo por entre a carne, ansiando a morte, essa mulher que, como uma afinadora da pele e da matéria, desbastando corpos, desventran­do-os, com delicados bisturis (seus brinquedos), desenhando in­cisões, desbastando, até o nada – o céu lavado de algodões, seus puros olhos, antes da mácula; por que ousaram feri-la?

– Ela vem no último ônibus, que parte de sua casa às três da tarde. Vem hoje mesmo, não pode ser de outro jeito. Ligou-me quando o Senhor estava no quarto, dormindo. Tinha uma voz esquecida. Contou que vem com uma garota. O Senhor entende? Deve che­gar aí, por volta das seis.

Um cavalo a voz de Bruno, relinchando com poeira e velhice, se não fora o estertor seco de areia descendo por funil metálico, melhor dizendo, uma ampulheta. Com sua boca de tempo, de engolir coisas ao tinir dos cascos. Mas um arrastar, de cavalo ve­lho, algo assim como:

– Ela vem… Sim, Senhor.

Penso que Bruno não seja como aqueles, os três negros que andavam sempre como siameses, de quem, das trevas, só posso destacar os olhos, lâmpadas acesas na profundidade. Arrastando-se como velhos anciãos barbados, pintados de fuligem, apinha­dos quando se sentavam para comer, para beber. Debruçados sobre um córrego de água, como um Cérbero de sombra. Quem será Bruno? Qual o desenho de seu rosto? Imagino um prato, de louça, com uma ameixeira furando a superfície lisa. Da car­ne enrugada das ameixas, do negro reluzir das frutas de efígies, os homens mordem o branco do prato. Eles surgem do rosto de Bruno, três morcegos vindos do tempo, da catedral erguida pelo presente, o futuro, o passado, o estar aqui e agora, em frente à porta aberta para acariciar os algodões respigados do sangue dos enfermos. Catedral indiferente e fria em sua primeira aparência de um hospital eterno, zunindo o vento que os incita dentro da carne manchada, mesmo da carne velha há esse cheiro adocica­do, a doçura numa coroa de defunto, o céu coroado e lúgubre (não sei). Nunca sei, e posso perguntar a Bruno:

– Como está o céu?

Deve estar limpo, azul e suave, porque Pamela vem, com o vento, com os algodões manchados de sua própria culpa.

– Os negros, o Senhor lembra? Cantavam como violas, até mesmo quando Pamela caiu da escada, quando tocaram ainda mais violentamente, um som de fúria entristecida, um dobre de sinos. Mas ela quebrou a perna, Senhor, torceu-a, e o médico dis­se que não adiantava recolocar no lugar, e Lea vem daqui a pouco entre os algodões, Pamela puxando da perna, apesar de que, se não fosse por isso, ela seria a mais bela profetisa do campo, como uma mariposa presa na parede naquele dia em que os negros can­taram para ela, o Senhor escutou como cantavam alto os violões como um som no fundo de lamento e gozo ao mesmo tempo se não era a alegria? E o Senhor entrou lá na cozinha de noite, por­que o Senhor já não costumava dormir desde que Pamela nasceu e ela cantava como os negros, baixinho, e riu do Senhor, não foi? Riso de convite ou de quê? Mas não se aproxime muito da porta, senão cai com o degrau, veja como os algodões falam, um botão com outro? Falam do sangue espargido para frutificar a colheita assim como os negros cantavam para frutificar nossa família, uma família de dor, sem conhecimento.

Ali pode ser ela, Lea, ao lado de Pamela puxando a perna, e Bruno nunca deixa o hálito das cerejeiras quando o vestido de folhas molhadas ressalta a pele clara, os algodões choram de ci­garras, pois Bruno espera a chuva, que é água de Pamela, o que em seu corpo, apesar dos negros postados na calçada – porque já saíram do ônibus, três Lúciferes escandidos nos paletós bran­cos, que seriam esquifes, não fosse o lirismo das lapelas –, guar­da uma rosa úmida nunca sazonada pela pele escura do criado agora pousando a mão encardida em minha cadeira que já não sou mais o adorador de Pamela, porque a adoro pelo cheiro dos algodões o clorofórmio dos doentes nas enfermarias quando a vi e sua juventude. Mais se aproxima, pois o arrastar da perna é meu guia entre o mormaço, as cigarras inchadas não trazem a água de Bruno, mas um canto estrídulo de vitórias secas, e Bruno aferra os dedos na cadeira, quisera sentir as pernas quando de­pois do ônibus, não o dos negros, levaram-me aos leitos nodosos do tempo. Pamela respirava por um balão toda a sua brancura, e eu a quis, como jamais o desejo naquela hora em que seu rosto conspurcado as ataduras as macerações da carne de uma jovem sem conhecimento do que os negros poderiam fazer com ela em uma fazenda, as ordens do pai eram para tocarem enquanto um pai se despia entre os sacos empilhados de maçãs uma filha não nasceu para isto, nenhum filho deveria ter nascido se não fosse para a bondade.

– Mas, o Senhor, então, posso contar como ela está. A cabeça inclinada pede desculpas para o sol e ele batiza a sua vontade. Ela logo erguerá a face e evitará revê-lo, porque tudo no Senhor lhe lembra a profanação no hospital, ela nunca o perdoou tê-la visto naquele estado há vinte anos, o corpo ferido, a enfermeira tentando salvar-lhe o lado esquerdo do rosto que acabou perden­do um pouco da visão.

Só era uma menina, na fazenda vinha pelo lado do fogo, este lúcido modo de doar-lhe o dia. Pisa o chão da cidade, mas os botões de algodão recendem ao campo, ao martírio do sangue, pois estão manchados. Lea já se aproxima do velho em cima da cadeira em posição vencida, que poderia ser seu avô, mas não é, que quis Pamela naquele quarto de hospital e ela não o quis e, neste intervalo construído por uma recusa, um corpo sofreu, so­fre e continuará a sofrer. Sempre um corpo se humilha perante o outro, vencido pela fragrância e a carne, a delicadeza, quer a casa materna entre os cornisos, há lebres que ela espantava, sua arro­gância diante do outro sexo a fez ser o favo seco, na fazenda nunca houve um ninho de sol, o pai coroava a mesa seu chapéu um sol velho escarificava seus olhos de pontais os negros por trás das ja­nelas esgrimiam murmúrios o cheiro a enojava, porque negros não podiam ter nascido naquela mansão de olivais castrados.

Mas se não foram os negros que a espiavam passivos enquan­to o pai conhecia seu íntimo? Colmada de maçãs, não como ago­ra – já atinge o alpendre e nem olha para mim, tem a vista com esta expressão mortuária, logo após vem Lea –, cheirava a frutas, o corpo do pai foi o único conhecimento da intimidade. O paiol, os negros possuem ainda a mesma expressão de espanto, e se pu­dessem, teriam evitado as núpcias profanas, eu ouço quando Lea me vê o rinchar de um sino, talvez o coração de Pamela irmane de uma igreja, seu olho meio cego a rosa de algodão no buquê em suas mãos, o vestido de rendas brancas de noiva possa sentir sua mão mais delicada que a chuva espargindo, poderíamos viver e eu veria nas trevas, deixaria que trouxesse seus negros, enfeita­ríamos a casa ensinaríamos a Lea o amor dos pais, mas cada ten­tativa de emergi-la das águas em sombra teria como paga o des­prezo, pois um filho das sombras não sabe do prazer e da partilha. Bruno desloca a cadeira de rodas, e não sei desta visita de Pamela, apenas veio porque o pai fora encontrado no celeiro, um poço na garganta, a faca ungida às maçãs. Os negros, com estas mes­mas lapelas que ceifam a porta da casa, faziam roda em torno do corpo, Pamela, soube que ela se ajoelhou e beijou a rosa coagula­da, a boca uma orquídea de sangue, e riu como loba, seus dedos tintos pintavam o ventre inchado, os negros a levaram aos gritos para dentro da fazenda, foram eles mesmos que a adormeceram, depois saíram para a lua núbil e cortaram o tronco do carvalho, a noite regou-se de golpes de clavas. Das outras fazendas pude­ram vê-los, tinham assumido a altura dos carvalhos, erguendo o caixão, era uma barca na madrugada, e o pousaram na terra da pequena montanha, as violas e fogueiras para a rosa eterna.

– Mas, e agora, Senhor, escute como Lea tem o mesmo andar do pai, só que suavizado pela queda? Por que ela acaba de entrar em sua casa, um pé arrastando, nunca vi uma menina tão triste. Se você fosse o pai, apostaria que essa tristeza pudesse morrer? Mas ela foi gerada no que Pamela acredita ser o amor, o diário rito de silêncios e controles. Os três negros… Pode vê-los das trevas? Eles não estão aqui, à medida que o levo também para dentro, porque hoje teremos um sabá, todos os quartos estão preparados, os toucadores, espelhos, relógios, talheres de prata, há fragrância de flores nos banheiros, tapetes vermelhos nas escadarias, papou­las nas penteadeiras, um velho mocho nos anuncia o erotismo in­digno. Eu digo que nenhum negro está aqui, mas Pamela e Lea os creem seus anjos, um deles pendurou-se no lustre da sala, abre as asas e a crina de morcego é uma grinalda de sombra nos cabelos de Pamela; um outro dedilha música no fio do lustre, lembrando-nos de sua terra, num bar cevado de rebenques; e, afinal, não será este último negro, subindo as escadas, o corpo de Lea projetado pelas luzes dos candelabros? Mas que tudo isso importa, se Pamela se deixa cair no leito, se irá ensiná-lo a linguagem do carinho?

Mas, ao fim, é que não posso. Bruno me colhe como um filho, cruzo os braços em torno de seu pescoço, ele sobe as escadas, carrega-me como flor ungida no prado. As teias de sua velhice me lavaram, perfumaram-me, porque aguardei toda a vida por esta hora, e ainda não posso. Pamela já tirou o vestido, aos olhos da filha, o corpo rogando a virilidade, seu corpo o mais desejado bálsamo, os braços abertos, a carne entre as coxas entoando mú­sica dos metais de um gigantesco órgão na catedral, há os bácu­los, um monge espalhando pétalas nos lençóis, coroando Pamela. Por que não tiraram Lea, por que se mantém sentada numa ca­deira ao lado do toucador? Os negros se uniram em um tríptico, que é o rosto da filha, o prato de louça perfurado pelo galho da ameixeira, o olho cego de Pamela se ri de meus olhos, pois, afinal, a sinceridade não pode se unir à malícia, porque o pai surge de ambos os rostos, de Lea, de Pamela. E Bruno não pode me deixar, não deve me deitar no quarto perfumado, onde o espelho guarda a efígie da filha, com chavelhos brotando dos cabelos envelheci­dos. É uma menina de grande idade, a profetisa, e dos três negros se forma um rosto de barba espetada, a mesma poça no pescoço, o sinal de nascença de Lea. Mas me abandonou, Bruno se afasta para a porta, sinto as mãos de Pamela – e não foi por elas que teimei em viver? – adornar-me os cabelos. Naquele celeiro, havia maçãs, como agora, as mesmas que Lea faz sair de um cesto, sou, então, cercado de maçãs, tenho mulher e filha, Bruno se acarinha nas trevas como um feto. O pai me cobre de ácidos frutos, entre os carvalhos retesados os três negros ensaiam uma dança, saem das casas famílias com cestos, é meu corpo partilhado as peque­nas frestas no quarto, cigarras espirram úmidas cerejas e não po­deria dizer que não é o medo o que me causa o olho maculado de Pamela, ele me sorri, a casa é um templo constelado, há o lobo, o lince, os cães. Há machados acesos. Bruno ainda vai nascer. Os primeiros dobres do hospital me chamam até o quarto e ci­garras chovem junto com maçãs. O perfume dos espelhos, das taças, a sagração de um órfão, Ofélias, então, ressuscitam dos rios e cavalos decapitados bebem das margens o incêndio, porque Lea tem um poço vermelho nos lábios.

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