Veredas do grande conto: a descoberta do sertão em Guimarães Rosa

Veredas do grande conto: a descoberta do sertão em Guimarães Rosa, do escritor e doutor em letras Leonardo Vieira de Almeida, é um estudo do opus magnum de João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, que visa estabelecer inter-relações com os relatos dos cronistas da América e do conto enquanto gênero. Assim, mediante a análise de duas frases fundamentais de Rosa, ambas pronunciadas em seu célebre diálogo com Günter Lorenz, no ano de 1965, em Gênova, procura-se apreender sob diversos matizes a construção de uma espécie de “geografia literária” do escritor. Tais frases, “meus romances e ciclos de romances são na realidade contos nos quais se misturam a ficção poética e a realidade” e “O escritor deve ser um Colombo”, sublinham uma estratégia literária em contraponto com determinada corrente de escritores da América preocupados em redescobrir a “aventura da língua” ao aproximarem “conto” e “geografia”, ou o “literário” e o “ ensaístico”. Tal estratégia teria seu nascimento, na América inglesa, com Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe; e, na América portuguesa, com Machado de Assis. Assim, Guimarães Rosa, por meio de um ex-jagunço semiletrado, Riobaldo Tatarana, ensaia a aventura da língua ao recontar o “sertão”, espaço “geográfico” por excelência, na sua paródica visão da filosofia da História. Espaço indomável, que sustenta uma proliferação infinita de causos, microcausos, estorietas, anedotas que destronam o saber doutoral e expõem como magma da vida a ironia, o humor como forma mentis.

O livro, enfim, de modo a tratar destas questões, está construído de maneira a demonstrar em sua própria forma a crítica de Guimarães Rosa ao saber instituído, por meio de uma escrita que margeia o ficcional sem desconsiderar o teórico, exposto por procedimento poético.

Veredas do grande conto: a descoberta do sertão em Guimarães Rosa. Leonardo Vieira de Almeida. Rio de Janeiro: Editora da PUC-Rio em coedição com a Editora Uapê, 132 p (Prêmio Antonio Olinto, concedido pela UBE – União Brasileira de Escritores, 2012).  

Lançando-se à aventura de percorrer Grande sertão: veredas e outras narrativas com a mesma assinatura autoral, Leonardo Vieira de Almeida constrói uma cartografia peculiar para esse território que o escritor descobriu, ao cumprir sua própria exigência de fazer-se novo Colombo no desempenho de sua tarefa.  Mas tal cartografia não é simples registro de observação e análise. O crítico se impõe uma exigência tão rigorosa quanto à do artista e passa a persegui-la com o desenvolvimento de um método ensaístico que explora as possibilidades interpretativas na fronteira com a invenção literária. Tendo escolhido rastrear o périplo sertanejo do jagunço narrador, divulgado nos meados do século XX, em contraponto à trajetória colonizadora da América, traçada no século XVI, dá destaque à diferença entre a viagem da conquista e o retorno da especulação, entre a história dos ciclos de extrativismo lucrativo e a fabulação fantástica das rotas de crítica transvaloradora. A estratégia desse confronto fundamenta-se no humor, compreendido como a potência narrativa rosiana, que acolhe perspectivas contraditórias, conjuga diferenças e faz rir das acomodações harmônicas. Nesse gesto de ultrapassar limites, sobrepõe – ao mesmo tempo que distancia – as atividades de leitura e escrita; assim, resiste decididamente ao autoritarismo da unificação epistemológica, pois renova e desfaz, a cada passo, o “pacto” entre o conhecimento erudito, conservado na biblioteca, e a sabedoria selvagem transmitida nos ritos da oralidade. O gesto, que se acaba de descrever, foi captado, com extrema perspicácia, por Leonardo Vieira de Almeida, na aparente estaticidade do conto rosiano. Para restituir-lhe a fluência muitas vezes vertiginosa, incorporou-o em seu movimento escritural de leitura. Assim, o ensaio é capaz de vivificar os emblemas dos múltiplos contos, proliferantes naquele “sertão” de estórias, porque seguindo-lhes o ritmo, recupera a graça de suas meias-verdades e repropõe, para o público de hoje, os mesmos renovados enigmas, na força plena de sua instigação ao pensamento.

Marília Rothier Cardoso

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