O livro de tule

Poderia ter sido em algum dia, que não este, aquela mesma profusão de amizade a qual é um bálsamo para o sofrimento. Mas não, é necessário que este último permaneça, como uma flâmula, postada entre os zimbros e o mirtilo, impedindo-os de receber a luz do sol. Para quem, como eu, acreditei verdadeiramente neste idílio – a página nunca alcançada aguardando, no entanto, as palavras que dizem de si o único desejo, encontrar em alguém pelo menos um indício de promessa; porém, já se passaram largos anos e o que devo ao mundo são apenas estas mesmas palavras que escrevo. Sem nada mais que elas, a postura fidalga do tolo, curvado no sótão, sobre a mesa de escrever. Curvado no sótão um homem sem traços que lhe possam dar fisionomia. O rapaz da casa de tecidos me pergunta, toda vez que passo ali em frente: Pode me descrever como você é? Mas sem mesmo minha silhueta no espelho, ou em qualquer vitrine, se passeio sem que ninguém me veja nas ruas, só mesmo captado pelo jovem imberbe a mostrar para mulheres as razões dos tecidos, do merino, rendas e pechisbeques, pois o rapaz não é nenhum parvo. Com sua arte de vender, conseguiu que uma jovem de cabelos ruivos se encantasse por uma fazenda qualquer, acreditando ser esta uma prenda só menos rara que seus fios rubros, que lhe dão, contra a pele acetinada e nívea, um ar de unicórnio, sempre prestimosa, sempre indolente. Mas foi para ela que o vendedor de tecidos deixou-se levar em célere trote, cercou-lhe, rogou-lhe e, por fim, a troca de anéis; em breve, irão desposar. Pois a este Sélvio, perante a porta de seu estabelecimento, perguntei:

– Você me reconhece?

– Só pelo corte do paletó, que é de bom linho. E pelos sapatos, encerados de ráfia -. Vestia ele, sobre a camisa pregueada de festões, o colete cor de colinas prussianas. Sustentava-se sobre um cajado, e carregava, a tiracolo, a bolsa de couro. Lembrava-me um pregador do Velho Testamento.

Pois então ele só via minha indumentária, enquanto todos, ao redor de mim, não davam por nada. Contra a multidão de pessoas, cartazes, veículos, contra o próprio prédio onde vivo, somente o paletó e os sapatos, tendo esquecido, evidentemente, de citar o colarinho da camisa, muitíssimo engomado, por sinal.

– Se não for incomodar – ele me disse, entre os lábios ungidos de saúde -, gostaria de lhe apresentar um livro.

– Mas você escreve?  – indaguei. O frio da rua me forçou a buscar naquela loja aquecida pelas prateleiras de tecidos e por diversas lâmpadas suspensas em lamparinas florais uma ansiada proteção. Não havia fregueses àquela hora, muito próxima do fim do expediente. O dono da tabacaria ao lado, velho de gordura indecente, fechava as portas gradeadas sobre as vitrines.

Sélvio retirou de uma gaveta do balcão a chave, inseriu-a na fechadura da porta lateral e entramos na biblioteca, no centro do qual havia um canhenho. Era um aposento grande e grave, envelhecido demais para um rapaz como Sélvio. Antes de chegar ao canhenho, minha sombra foi flagrada por um espelho de moldura seca. De fato, só mesmo o paletó e os sapatos, o colarinho como a antessala de um rosto sonhado. Fugi logo da superfície polida e pude ver o livro com uma lombada de capa de pano. Perguntei ao vendedor de tecidos se podia folheá-lo.

– E para que mais o trouxe aqui? -. Riu à socapa. Um riso pesado, espectral.

Meus dedos que, imaginariamente, saíam das golas do paletó, viraram a capa. Era um tecido fino e transparente, como papel-bíblia. “Tule”, ele me disse, “uma rede de malhas redondas ou poligonais extensíveis, como o filó”. Não havia propriamente textos, mas gravuras. Sob a inclinação discreta do paletó, pude perceber que na primeira folha estava inscrita uma gravura, desenhada com linha. Era a própria loja de tecidos. Na página seguinte, Caterina, a noiva de nosso vendedor, seu cabelo ruivo era a copa de uma bétula, no outono. Logo depois, o paletó, o paletó com sapatos – até mesmo o detalhe do colarinho não fora esquecido -, sem que neste desenho houvesse qualquer referência a um nome. Aquilo me desesperou. Folheei freneticamente o livro, e pude ver, como num cinerama, a única imagem apresentada em uma larga tela côncava. Em verdade, desde que me tenho por gente, tudo estava ali, até mesmo o quarto que eu ocupava no sótão, a mulher que não aceitou meu amor (pois como uma jovem poderia corresponder ao pedido de um fantasma?), o amigo que, após anos, revelou ser meu algoz, e, a partir daí, comecei a desaparecer aos olhos do mundo. Lágrimas caíram sobre as últimas folhas de tule, até que, na última página, vi um rosto destacado na linha trançada, vermelha. O rosto de sibarita, de homem atacado por uma profunda magreza, quem sabe um incurável mal físico, mas que não evitava, ainda, estampar a marca da voluptuosidade. Pois então, aquele livro, o trabalho paciente da agulha e da linha, uma resposta, talvez, às minhas próprias palavras.

Fechei o livro, cujas páginas finais agora estavam úmidas. Um tremor atravessava todo o meu corpo. Algo, no mistério insondável de minhas fibras, em cada traço escondido aos olhos do mundo, começou a compreender. Sélvio continuava no mesmo lugar, o cajado ferindo o assoalho, decerto o missionário de outra Terra Prometida. No espelho, sobre o canhenho, Caterina folheava o livro de tule

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4 Comentários

Arquivado em Contos

4 Respostas para “O livro de tule

  1. Dora Locatelli

    Seus contos parecem vir de um antigo mundo que não se conhece. Até os vocábulos nos são desconhecidos.
    Leo, você não é deste mundo.
    Abraços da
    Dora Locatelli.

  2. marco aurélio tasca

    Caro Leonardo contudo ainda restam belezas como esse conto.Parabens!

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