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Traduções do autor

A roda do faminto

Por entre meus próprios dentes saio fumegando,

bradando, lutando,

baixando minhas calças…

Vazio meu estômago, vazio meu jejum, Continuar lendo

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Poema em pampa

Tudo quieto e findo

E pura sensação de paz

Como agora

Um cubo desabitado, Continuar lendo

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[Sobre o cimento fresco]

Sobre o cimento fresco

do mudo mar de minha cidade

– entre os tristes botes

das docas de pescadores – Continuar lendo

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O colecionador de nuvens

 Conto traduzido a partir do original em espanhol El coleccionista de  nubes, do escritor mexicano Mauricio Montiel Figueiras, publicado na  antologia Los mejores cuentos mexicanos, edición 2003, selección y  introducción de Gerardo de La Torre con la colaboración de Alberto  Arriaga. Colonia Florida: Editorial Joaquín Mortiz, 2003.

El coleccionista de nubes

                                                                                                                                                                                                                                  Com a presença de Richard Misrach

Desde aquela tarde azulada de sua meninice em que se voltou para o horizonte e pensou que as nuvens eram uma frota de navios encalhados nos arredores da cidade, Franco as colecionava. Ou pelo menos era o que respondia, quando lhe perguntavam a que se dedicava: coleciono nuvens, dizia com a gravidade de quem conhece as intenções ocultas não só de seu ofício, senão do mundo, para logo esboçar um gesto aéreo e misterioso, similar a um riso. As pessoas lhe devolviam a careta e se afastavam dele com pressa, tossindo ou gaguejando, ansiosas por encadear-se numa prática banal, sadia ao final de contas. Franco  as via se afastar e não podia mais que evocar nuvens, diáfanos estratos reclamados pela distância a que pertenciam. O gesto aéreo permanecia impassivelmente imóvel em seu lugar.

Idêntica ao calendário cristão, a vida de Franco se dividia em dois grandes hemisférios históricos: a. C. e d. C., ou ainda melhor, antes da câmera e depois da câmera. No primeiro se amontoavam postais e recortes de diários e revistas, toda uma infância consagrada a apropriar-se das nuvens alheias: nuvens brancas e cinzentas e marrons e negras e vermelhas e sépia e inclusive verdes, matutinas e vespertinas, delgadas e robustas, límpidas e listradas, em urbes fulgurantes e sobre intempéries sulcadas justamente pelos rastros de uma civilização nebulosa. Franco recordava com insólita claridade a reclusão voluntária em seu quarto, as horas reduzidas a uma vertigem de cortes de tesoura que ofuscara as tentações do exterior – a ida ao cinema com os amigos do colégio, a partida de futebol no parque –, e que se dissolveu ao pisar território proibido: as enciclopédias que, em uma tarde, diante da aluvião dos gritos paternos, não conseguiram dissimular suas páginas mutiladas. Recordava também as chamadas a amizades e parentes que se comprometiam a enviar postais dos lugares – dos céus, certamente, só porque você é filho único – por onde viajavam; o dinheiro investido no jovem carteiro que lhe permitia escolher cartões postais cujos remetentes seriam recebidos com completa perplexidade: por que você nunca escreveu, por que promete algo e não cumpre? Gostava de filmes, sem dúvida, desde que transcorressem em paragens abertas, ao ar livre; o firmamento devia ser o protagonista. Masturbou-se pela primeira vez no banheiro de uma casa de campo; o orgasmo, acelerado mais pela imagem da chuva que enchia o horizonte do que pelos bicos dos seios de uma prima entrevistos na piscina, chegou com a raiva de uma tormenta e o deixou estendido sobre os mosaicos durante uma eternidade, enquanto a água arrastava seu sêmen como o vento arrasta as nuvens. Em geral, seus sonhos eram luminosos, de uma leveza celeste, mas, em certas ocasiões, uma condensação, uma espécie de nanquim, colava-se a essa transparência e ele despertava ofegando, consciente de haver sofrido um pesadelo que não poderia reconstruir. Um pesadelo, matutava, ou um eclipse?

O segundo capítulo de sua biografia estava governado pela câmera e a obsessão por apanhar nuvens – suas próprias, íntimas nuvens, já que possuía a curiosa certeza de ter esgotado o acervo dos demais. Sua mãe o presenteou com a primeira Canon, um fetiche fiel que o acompanhou ao longo de sua precoce adolescência e que evocava com carinho cada vez que via a foto inaugural, da qual não quisera se desfazer: captada desde a enorme janela de seu quarto, uma nuvem solitária suspensa no meio do céu como símbolo de uma época demasiado tórrida, demasiado irrecuperável. Inoculado com o vírus da fotografia, Franco se entregou de corpo e alma a uma febre que lhe concedeu uma oportunidade única: redescobrir a abóbada celeste, o que equivalia a dizer o mundo – seu mundo, que era o que importava. Todas, absolutamente todas as nuvens eram acessíveis; alguém podia apoderar-se desse orbe etéreo simplesmente acionando o disparador: clic e pronto. Clic e uma aurora invernal desvelava seus milagres nebulosos. Clic e um meio-dia aparentemente anódino se convertia em um panorama memorável. Clic e se fixava um pôr do sol transformado num armazém de algodões sanguinolentos. Clic e as fotos iam se empilhando no quarto e logo no estúdio de Franco. Clic e as pessoas que pediam seu retrato passavam a ser uma desculpa para continuar com esse tipo de pilhagem espacial; havia aqueles que, ante as imagens que Franco lhes mostrava, coçavam os pescoços para se certificar de que não haviam sido decapitados: suas cabeças apareciam invariavelmente desprendidas de seus corpos, relegadas a um ângulo inferior, meros esteios sobre os quais descansava o firmamento, que era o personagem principal. Pouco a pouco a lente de Franco se esqueceu do pretexto humano e concentrou-se no que se poderia chamar um voyeurismo de altura. Câmeras, mulheres e amizades foram e vieram; o objetivo, contudo, permaneceu incólume.

A oferta de trabalho em uma célebre revista de viagens caiu, literalmente, como uma benção do céu. Editores, repórteres e fotógrafos nunca tinham visto tal dedicação, semelhante renúncia a tudo o que não se relacionasse com a visão voltada para o alto.  Se continua nas nuvens vai acabar com torcicolo, advertiam, e Franco esboçava seu gesto aéreo e acionava o disparador. Logo ganhou o respeito de seus colegas mais exigentes, uma admiração não isenta de inveja e certa dose de lástima; sua reputação, para usar um lugar comum, subiu como a espuma, se bem que ele gostaria de ter dito – num arrebatamento nada comum de afetação –, como  a umidade que se transforma em chuva. Por incumbência da revista percorreu lugares que o impeliram a queimar, numa tarde de nostalgia e uísque profundo, os postais e recortes acumulados na meninice; descobriu cidades e povos e desertos e mares e selvas que nunca concebera e de onde sempre regressava satisfeito, ávido por revelar os filmes que faziam crescer o equipamento como estranhos tumores. Uma meia-noite em Nova Iorque, atento ao impetuoso espetáculo das nuvens esfatiadas ao se chocarem no cimo dos arranha-céus, decidiu que devia fazer algo com sua vida, isto é, com as centenas de fotografias que abarrotavam a pequena casa comprada nos arredores de sua cidade natal. Começou assim a catalogar imagens, a dar-lhes ordem e sequência, em busca de um padrão que não tardou em achar. Pediu férias – nunca as havia tirado – e viajou metodicamente, com o firme propósito de capturar a hierarquia nublosa: nimbos-estratos, cúmulos, estratos-cúmulos, cúmulos-nimbos, altos-cúmulos, altos-estratos, cirros-cúmulos, cirros-estratos, cirros. Ao voltar, não foi difícil para ele encontrar galerias dispostas a exibir sua biografia em clave etérea. Artigos e críticas entusiasmadas tampouco faltaram.

Clic. Clic.

Colecino nuvens, acostumou-se a declarar, porque sou todas elas.

Clic, clic, clic.

Uma noite, ao chegar em casa, depois de pegar seu terceiro livro (Esboços do céu protetor), esvaziou na banheira os garrafões adquiridos no dia anterior. Escolheu suas melhores fotos e as distribuiu pelo banheiro, onde se trancou, acompanhado da garrafa de uísque. Despiu-se cerimoniosamente, masturbou-se em memória do horizonte obscuro que precipitara sua primeira ejaculação, afundou-se na banheira e começou a beber. Antes de acender o fósforo que deixaria cair no lago de gasolina onde boiava, pensou na fagulha inicial e disse a si mesmo que sua vida valera a pena para alcançar esse momento. Pensou que assim, convertido triunfalmente em nuvem – efêmera, de vapor, sim, mas finalmente nuvem –, poderia se unir às presenças que controlaram cada um de seus atos para sobrevoar as intempéries recortadas durante a infância, esses terrenos baldios que acolheriam com júbilo o rastro de uma sombra dócil e veloz.

 

Mauricio Montiel Figueiras nasceu em Guadalajara, México, em 1968. É ficcionista, ensaísta e tradutor. Atualmente trabalha como editor da seção cultural do semanário Cambio, da Cidade do México. Autor de quatro livros de contos, também publicou dois livros de poesia. Conquistou o Premio Nacional de Poesía Joven “Elías Nandino” e o Premio Latinoamericano de Cuento “Edmundo Valadés”.

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Machado de Assis e a literatura vitoriana: notas de pesquisa sobre autoria, originalidade e plágio

Machado de Assis e a literatura vitoriana: notas de pesquisa sobre autoria, originalidade e plágio

Este texto foi escrito por João Cezar de Castro Rocha graças a uma bolsa de pesquisa, concedida pela British Academy para o desenvolvimento do projeto “Machado de Assis: A (Critical) Reader of the British Tradition”, Continuar lendo

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As estações de um autor: o work in progress de João Almino

As estações de um autor_o work in progress de João Almino 

Este texto foi originalmente escrito em espanhol por João Cezar de Castro Rocha e traduzido para o português por Leonardo Vieira de Almeida. Publicado na revista Imáginario, da Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia,
Laboratório de Estudos do Imaginário, v.13, n.14, em junho de 2007.

RESUMO

Este ensaio analisa As cinco estações do amor, terceiro romance de João Almino, publicado em 2001. Ensaísta reconhecido – com uma importante obra de reflexão política e ética –, desde 1988, com a publicação de Ideias para onde passar o fim do mundo Continuar lendo

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